"Lar, infernal lar", exclama Amélia enquanto roda a chave 4 vezes, trancando-se na fingida segurança dos tijolos rijos e das poucas portadas por ora cerradas até que chegue a alvorada. Completa a rotina ligando o alarme, aquecendo o jantar no microondas, abrindo o livro sobre um tema ligeiro, que folheia distraidamente à espera que o sono chegue. Sem passado ou futuro. Vivendo o dia-a-dia pois já deixara de acreditar em sonhos, principes encantados ou fortuna que a roubasse dessa vida enfadonha, solitária e sem sentido. Suspirar pelo fim-de-semana está fora de questão, o trabalho preenche-a mais do que qualquer entretenimento e não se suporta o suficiente para passear sozinha...
Acorda sobressaltada com umas pancadas na porta. Que horas serão?!
Luís bate a porta pois julga ser essa a melhor abordagem para apanhá-la desprevenida, sem tempo de dizer-lhe não. Ela nunca resistira ao seu sorriso iluminado, ensaiado vezes sem conta para disfarçar a escuridão da sua alma. Atrás dessa porta está o corredor onde soam os seus passos, na longa e lenta caminhada até ele. Luís goza esse segundo interminável em que verá finalmente o rosto envelhecido da mulher, marcada pela dor da sua ausência. Estará bela como antes, bela como ele nunca o admitiu? Recorda a sua doce submissão e anseia humilhá-la novamente, descarregar as suas frustrações, a sua mesquinhez reprimida. “Só quero tocar-lhe, sujá-la e sentir-me homem outra vez…”
Depara-se então com um jovem incrivelmente alto e com cara de poucos amigos. Amélia já ali não vive.